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O Irã é o único país no mundo em que toda mulher é obrigada, por lei, a se cobrir (na Árabia Saudita o uso para turistas não é compulsório). Talvez seja por isso que quando o avião pousou em Teerã, a Fê escondeu, debaixo do lenço, até o último vestígio de cabelo. Se você também está indo pra lá e já começou a ficar nervoso só de pensar, calma que hoje te explicamos direitinho como se vestir no Irã.

*Texto escrito em junho de 2017 e atualizado em janeiro de 2018. 

Como se vestir no Irã

Embaixo da ponte Si-o-seh pol, Esfahan

Passar pela imigração foi um pouco tenso. Sabíamos que mulheres deveriam cobrir braços, pernas e cabeça e que homens deveriam cobrir as pernas. Mas será que estávamos vestidos apropriadamente? E se nos prendessem já ali no aeroporto? Tínhamos sido tão criticados por família e amigos por viajar ao Irã, que começávamos a duvidar da nossa decisão.

Foi sair do aeroporto para descobrirmos que o Irã não era nada daquilo que as pessoas imaginam. Estávamos, na verdade, em um dos países mais seguros, interessantes e bonitos que já visitamos. Quer saber mais, ent’ao dá uma olhada: 

Dois dias de Irã mais tarde, já conhecíamos alguns locais e tínhamos observado o suficiente para perceber que aquele código de vestimenta não era tão rigoroso assim. Quer dizer, era, só que as pessoas não o seguiam tão rigorosamente assim.

Como se vestir no Irã

Conferindo nossas vestimentas antes de entrar em uma das mesquitas

Sim, as mulheres devem cobrir o cabelo, mas não era preciso que todo e qualquer fio estivesse escondido. Em Teerã principalmente, grande parte da juventude, utiliza o hijab jogado, quase caindo, com mais da metade do cabelo aparecendo. As nossas amigas iranianas inclusive tiravam sarro da Fe por ela andar tão coberta nos primeiros dias. Rs.

Como mulheres devem se vestir no Irã:

Como se vestir no Irã

Fernanda na simétrica ponte Si-o-se Pol

  • Calça: que não seja justa e não marque o corpo;
  • Blusa: qualquer uma sem decote;
  • Hijab: Qualquer lenço que cubra a cabeça. A Fe utilizou um cachecol nos primeiros dias, só fomos comprar um hijab porque era verão e ela estava passando calor se cobrindo com um cachecol de algodão marrom;
  • Manteau (pronuncia-se “mantô”): é uma espécie de capa que cobre a bunda e pode ser aberto na frente. Dá para encontrar em qualquer lugar (pagamos U$ 7 no Baazar central de Teerã). Para chegar ao aeroporto, como a Fe ainda não tinha o manteau, ela vestiu um casaco que cobria um pouco da perna.
  • Sandálias são permitida;
  • Maquiagem: tá liberado com tanto que seja de leve. Você vai ver que muitas mulheres iranianas se maquiam bastante.

Como homens devem se vestir no Irã: 

Como se vestir no Irã

Tiago no Palácio Golesta, em Teerã

Homens devem cobrir as pernas até a canela e usar camiseta. Simples, né? Mais uma pra lista de privilégios masculinos desse nosso mundão.

Quem tem tatuagens é recomendável tampá-las. Tínhamos conhecidos iranianos tatuados que nos disseram sofrer perseguição da polícia. Como você é turista, dificilmente será repreendido, mas é bom evitar.

Quão rígida é a norma de vestimenta no Irã?

Como se vestir no Irã

Mulheres em Yazd

Passamos um mês no Irã e não sofremos nenhum tipo de retaliação, mas também não ousamos provocar. Rs.

Nas cidades maiores como Teerã, Hamedan e Shiraz, existe mais tolerância quanto ao hijab, mas conhecidas iranianas nos contaram já terem sido levadas para a delegacia em Teerã por estarem mostrando muito do cabelo.

Um dia, inclusive, estávamos em um café bem alternativo na capital, com mulheres de alargador, cabelo raspado e tatuagens no pescoço, enfim, um lugar mais “liberal”. Mesmo assim, quando o véu da nossa amiga iraniana caiu por completo e ela deixou o cabelo à mostra, uma das garçonetes veio pedir para que ela o recolocasse. Aparentemente existem policiais à paisana em todos os cantos.

Se você for passar por cidades menores, é melhor seguir à risca e se cobrir direito. Ah, e se estiver planejando visitar cidades religiosas, como Qom, nem pense em deixar uma mecha de cabelo para fora do hijab.

O melhor é observar o que as pessoas ao seu redor estão fazendo e perceber o limite de cada cidade ou situação.

E lembre-se: no final das contas, quem mais sofre com as proibições do Irã, infelizmente, são os iranianos. Você dificilmente, como turista, terá problemas. Uma grande amiga vivia pedindo desculpas por essas regras.

A questão do hijab e como as pessoas se vestiam antes da Revolução Islâmica no Irã

Como se vestir no Irã

Uma criança usando o hijab em Tabriz

Aqui vem nossa interpretação depois de um mês viajando por todos os cantos do país.

A maioria das mulheres é contra a obrigatoriedade do véu. Não estamos dizendo que elas são contra o uso, mas sim quanto ao uso ser compulsório. Pelo que vários amigos iranianos nos explicaram, antes da Revolução Islâmica de 1979, usava o hijab quem quisesse. Essa é uma questão pessoal e de de fé (olha só essa matéria que mostra como as iranianas costumavam se vestir!).

Depois da revolução, a obrigatoriedade entrou em vigor e, várias mulheres que desafiaram a lei, tiveram a testa furada com um taxinha (para segurar o véu).

Hoje em dia, quase ninguém ousa desafiar o poder dos mullahs, mas dentro de casa a história é completamente diferente. Fomos a várias casas (principalmente em Teerã) em que nenhuma mulher usava o hijab, ou então, algumas utilizavam e outras não. Essa é a grande questão: cada uma faz o que quiser.

Presenciamos casos em que a mãe se cobria e a filha não. Em que uma das mulheres presentes nem sequer cumprimentava o Ti com a mão, já a amiga dava um abraço na frente de todo mundo.

Uma página muito bacana para enteder um pouco mais sobre como as mulheres se sentem, é a Stealthy Freedom, em que várias iranianas postam fotos nas redes sociais desafiando o governo. Uma página linda de luta pela liberdade da mulher.

Como foi para mim (Fe) ser obrigada a usar o hijab:

Como se vestir no Irã

Fe na Mesquita Rosa, em Shiraz

No começo foi interessante, porque era diferente, mas depois ficou chato. Constantemente eu me esquecia de colocar, estava quente demais e qualquer obrigação é um saco, né? O lenço também caía bastante com o vento ou com o movimento do corpo, e rolava uma obsessão em ficar tocando a cabeça o tempo inteiro para verificar se ainda estava lá.

Fiquei bem triste de perceber o quanto aquilo reprime as mulheres e, no final, não via a hora de me desfazer daquela “amarra”.

A preocupação em estar sempre com o hijab no lugar certo era tanta que, mesmo depois de algumas semanas, quando já estávamos na Armênia, eu continuava tocando a cabeça constantemente.