histórias da África

Quem me conhece sabe, sou uma pessoa pequena. Alguns dizem “pequena”, outros “muuuuito pequena” e já escutei até “anã”. Há também os que dividem a minha opinião e acham que meu tamanho é “normal”.
Bom seja lá a sua opinião, ser pequena tem suas vantagens… Até os 12 anos, minha família podia se hospedar em hotéis que davam desconto para crianças menores de 10; a minha viagem de avião nunca é tão desconfortável quanto a da maioria das pessoas; e eu não preciso de tanto para me embebedar, o que acaba sendo econômico.
Na África, no entanto, descobri uma grande desvantagem: o transporte público.
Para começar, a noção de super lotação atingiu níveis desconhecidos por mim até então. A ideia aqui é: sempre cabe mais um (o famoso coração de mãe).
Para piorar a situação, eu percebi que normalmente a fileira que escolho para sentar acaba tendo uma lotação a mais. Acho que o cobrador não me considera digna de ocupar um espaço inteiro sozinha.
Enfim, o resultado é que não importa onde eu me sente, esse SEMPRE será o pior lugar do carro/van/ônibus.
No começo de julho, viajamos de Mulanje para Macuba, em Moçambique, na carreta de um caminhão que é utilizado na área como transporte público.
A distância era de mais ou menos 100km em uma estrada conhecida como “estrada da morte”, mas que eu chamarei de “estrada sem fim” e que definitivamente deve estar listada entre as piores da África.
Fomos os primeiros a chegar na caçamba, tínhamos coisa de 4 m2 para escolher onde queríamos nos sentar. Obviamente, as pessoas foram chegando, eu não conseguia me fixar em lugar nenhum e cada hora pulava para um novo canto. Acabei mais uma vez no pior lugar: o fundo da carreta.
Uma senhora de uns 85 anos se aproximou do carro e nosso amigo David pensou em ajudá-la a subir. Antes que ele pudesse se levantar, a senhora já tinha saltado e estava lá sentada ao nosso lado.
Pessoas vão chegando e o caminhão vai enchendo.
A senhora tira do bolso o que parecia um baseado enrolado em folha de jornal. Eu gesticulo para a Emily acompanhar a cena. Ela oferece um isqueiro para a mulher. A senhora olha com cara de quem não sabe o que é aquilo. Um homem ao seu lado ri e a ajuda a acender o baseado.
Trago vem, trago vai, ela vira o cigarro e coloca a brasa dentro da boca e continua fumando daquele jeito, performando uma das coisas mais inacreditáveis que já vi. O cigarro termina e ela engole. E foi nesse momento que eu entendi que aquela não seria uma simples viagem.
Chegamos no caminhão às 8am e às 9am saímos. Iniciamos a viagem e eu percebo o quão ruim é o meu lugar. Estou espremida e na área menos estável da carreta, sentindo cada movimento do caminhão. Meu corpo resolve me testar e imediatamente sinto vontade de fazer xixi.
Uma criança de 3 anos começa a chorar. Eu simpatizo. Se não fosse julgada, provavelmente faria o mesmo.
Eu tenho uma teoria de que o transporte público na África mantem cotas para animais: um por veículo. No interior dos países costuma ser uma galinha, mais perto da costa, frutos do mar. Quem carrega peixe nunca é consciente de sua situação e sempre escolhe o lugar que terá maior impacto no resto dos passageiros.
Primeira parada, ninguém desce, mas sobe um homem com pescados frescos. Ele senta no meu pé, quase no meu colo, mas não sem antes derrubar água de peixe no meu casaco.

Eu olho ao redor e as pessoas parecem estar confortáveis. A Emily dormia. Como? Sempre admirei pessoas que conseguem dormir nessas posições. Naquele momento de inveja, quis acordá-la.
Parecia que o dia não estava para mim, ou na melhor das analogias, que o mar não estava para peixe.

Um dos passageiros ao meu lado considera meu joelho uma extensão do caminhão e segura nele durante todo o caminho, com o cotovelo diretamente apontado para o meu peito.

A estrada é muito pior do que qualquer um poderia descrever. E agora entendo porque os primeiros a chegar no caminhão escolhiam a frente da carreta: o fundo pula muito, tem mais poeira e é o pior lugar. A cada pulo, uma cotovelada no peito. Não dói muito e eu não reclamo. Afinal, “tamo junto”.

Depois de 20min, a porta da caçamba que eu e mais 7 pessoas estávamos apoiadas quase abre.
– PÁRA O CAMINHÃO!
Aperta a trava. Seguimos. O amigo ao meu lado me conta que em sua província várias pessoas morreram em um acidente quando a porta da caçamba se abriu. Agora acrescento paranóia a minha mente já aflita.
– Segura isso ai, hein?
– Pode deixar que eu tô apertando toda hora que o pino vai subindo.

Começa a chover. “Pega a lona!”. A lona preta imunda que estão todos sentados em cima.
“A lona tá muito suja!”. “Mas é o que tem”.
Caminhão em movimento, todos levantam, tira a lona, puxa a lona, põe a lona (no melhor estilo bandeirão de time de futebol).
Tem um rasgo na lona e está molhando quem está embaixo. Foi aí que percebi que não era a única afetada com toda a situação e compreendi que todos nós estávamos ali juntos passando por uma provação.
– Tamo junto!
Quem pode, ajuda a manter os rasgos fechados. Seus problemas são meus problemas agora.
Au! Cotovelada no peito.
– Amigo, não esquece o pino!
– Pode deixar, tô apertando!

Um bebê chora, ele tem medo do escuro que forma debaixo da lona. Pobre bebê que é muito novo para entender que também está sendo testado.
Passa a chuva. Tira a lona. “Mas não guarda que pode chover de novo”. Dá para o Tiago e David segurarem. Eles não ficam muito contentes com o novo trabalho, mas não importa. Estamos todos juntos e essa função foi designada a vocês, que estão posicionados atrás da cabine do motorista e podem segurar melhor.

Au! Cotovelada no peito.

Eu olho para o David enquanto este contempla o infinito com seus olhos semi abertos como um animal que observa sua presa. Devia pensar: “se tivesse trabalhado mais poderia ter vindo de carro” ou “por que estou seguindo esses brasileiros?”.
A Emily continua serena. Como pode?

Mais uma vez chove. “Pega a lona!”. “Mas tá muito suja”. “É o que tem”.
Todos debaixo da lona. Quem pode, ajuda a segurar os rasgos.
Pára a chuva. O Tiago dá a ideia de guardar a lona embaixo de todos novamente. Ok. Lona na base da carreta.
Caminhão pára. Desce o amigo do peixe. Seguimos.
Nesse momento eu estou utilizando minhas duas mãos para segurar meu joelho esquerdo que insiste em cair na cabeça da criança ao lado. O sangue não circula em minhas pernas há tempos e eu já não tenho poder algum sobre elas.

Au! Cotovelada no peito.
– Tá segurando o pino, né?!

Eu olho para o David e a mesma cara. “Por que África?” ou “por que, África?”.
O Tiago encontra uma nova posição para sentar e faz cara de “hum… Confortável”. Aquele momento em que o fato de conseguir descansar um pé em cima do outro é sinal de luxo.
Chove mais uma vez. Ninguém se atreve a pedir a lona. Cada um se protege com o que pode.
Mais uma parada. Uma família sobe com uma galinha (a cota).
Eu já tenho lama em todas as partes do meu corpo.
Sobe um rapaz com canas de açúcar. Sem pedir, um dos homens já vai pegando duas canas para dividir entre todo mundo. O rapaz não reclama. Deve saber que nessa carreta não há “meu ou seu”, é tudo nosso.
A cana é compartilhada entre todos e eu que não gosto de cana, como um pedaço. Compreendo a representatividade. Mais uma vez: “tamo junto”.

A família com a galinha desce. Eu tenho espaço para levantar pela primeira vez e aproveito para checar se ainda tenho perna. Ai! Um pouco de dor, mas tudo ok. Eu dou risada. Todos riem comigo. Nos entendemos.

Um homem carregando uma galinha se aproxima do caminhão agora. Ah não, ele só está tentando trocar o animal por um espaço na carreta. Nada feito. O motorista não aceita. Seguimos mais uma vez.

E assim fomos percorrendo 100km de estrada em 5 horas.
Chegamos em Macuba. Sorriso no rosto e alívio no coração, todos nos despedimos.
Eu saio com a certeza de que esse é o melhor tipo de experiência que se pode ter em uma viagem. Lembranças que carregarei para a vida. Momentos únicos em que podemos realmente participar da rotina da população local e compreender, ajudar e ser ajudado.

Até a próxima.