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Há 20 anos atrás, o moderno e visionário egípcio Gomaa Abu El Fadl decidiu abrir um pub na cidade de Luxor, um dos principais pontos turísticos no Egito. Em um país em que mais de 80% da população é muçulmana, é de se imaginar que não foi nada fácil para Gomaa Fadl se estabelecer por lá.
Depois de muito boicote e ameaças do governo e da população, o Kings’s Head Pub sobreviveu e hoje em dia pode ser considerado uma das atrações turísticas da cidade.
Luxor é parada obrigatória para quem quer conhecer os templos da era faraônica, mas por outro lado, pode se tornar sufocante por conta do alto nível de assédio dos locais. Por essa razão, muitos turistas buscam no pub um refúgio para o estress da cidade.
Em 2007, após a morte inesperada de seu pai Gomaa Fadl, Shady Gomaa assumiu o controle do estabelecimento. Agora Shady conta ao Monday Feelings um pouco mais dessa história e explica como é ter um pub em uma sociedade tradicional.

Bar no Egito

MondayFeelings: O King’s Head foi o primeiro pub de Luxor, criado pelo seu pai Gomaa Abu El Fadl em 1994. Por que seu pai decidiu abrir um pub no Egito?
Shady Gomaa: Meu pai abriu um pub inglês no Egito porque sempre admirou a cultura de pubs da Inglaterra. Como 90% dos turistas em Luxor são ingleses, ele imaginou que isso poderia ser uma ótima oportunidade de negócio.

MF: Você é o atual dono. Sempre soube que em algum momento iria assumir o pub? Você se preparou para isso?
S.G.: Sim, sempre soube que iria assumir o pub. Estudei três anos na Alemanha para me preparar para quando esse momento chegasse. Infelizmente as coisas aconteceram mais rápido do que eu esperava pois meu pai faleceu em 2007 quando eu tinha apenas 19 anos. De qualquer maneira eu sempre soube que eu acabaria como o dono do pub e sou muito realizado por isso.

MF: Apesar de ser egípcio você cresceu na Alemanha. Você sentiu algum choque cultural na volta ao Egito?
S.G.: Claro que senti um choque ao mudar da Alemanha para o Egito, porque são duas culturas diferentes. Entretanto, como eu vivi os 10 primeiros anos da minha vida no Egito, a minha re-adaptação foi muito rápida. Existem muitas diferenças no dia a dia desses dois países, mas ambos têm seus lados positivos e negativos.

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MF: 80% da população do Egito é muçulmana, religião que proibe o consumo de bebida alcoolica. Isso explica porque o começo do pub foi tão difícil. Como foi a reação do público no início e como é hoje em dia?
S.G.: Claro que foi um escandalo quando meu pai abriu o pub em 1994 porque as pessoas não sabiam do que se tratava e também por causa do alcool. Porém, com o passar dos anos nós fomos nos adaptando e as pessoas ao nosso redor também… Hoje em dia inclusive já existem outros quatro pubs em Luxor. Meu pai passou por muitas dificuldades no início, mas quando as pessoas perceberam que era uma ótima ideia de negócio e também muito rentável, outros pubs foram abrindo e as pessoas passaram a aceitar.

MF: Você também recebe egípcios ou apenas estrangeiros?
S.G.: A maioria dos nossos clientes são europeus, principalmente britânicos. No entanto cada vez mais egípcios estão se interessando pela atmosfera dos pubs e saindo mais para beber. Ainda não é completamente aceitável perante a sociedade então muita gente bebe escondido, mas a nova geração no Egito está cada vez mais ocidentalizada.

MF: Como o The King’s Head foi afetado pela Revolução?
S.G.: Meu pub foi severamente afetado pela Revolução, assim como qualquer negócio relacionado ao turismo no Egito. Luxor foi ainda mais afetada do que as outras cidades… Felizmente, por causa da nossa reputação por estarmos abertos há 20 anos, continuamos recebendo clientes fiéis e isso ajudou a nos manter, mas eu tive que colocar dinheiro do meu próprio bolso várias vezes para não fecharmos… De qualquer maneira estamos esperançosos de que a situação irá melhorar em breve.

MF: O King’s Head está aberto há 20 anos, você acha que já encontrou o segredo para o sucesso ou ainda planeja mudanças e inovações para manter-se sempre atualizado? Como vê seu empreendimento em 10 anos?
S.G.: Eu vejo que o pub descobriu o segredo para o sucesso mas não é por isso que pararemos de inovar e de nos atualizar, especialmente considerando que há uma nova geração que está começando a se interessar pela cultura de pubs agora. Eu acho que se continuarmos sempre olhando para frente seremos bem sucedidos. Espero que em 10 anos o King’s Head ainda esteja no topo entre os pubs de Luxor e se tudo der certo, um dia, futuramente, meus filhos tomarão conta dos negócios.

MF: Qual a relevância do The King’s Head Pub para os turistas em Luxor?
S.G.: O pub é relevante para os turistas porque é aqui que eles vem relaxar depois de um longo dia de turismo e assédio dos locais. Especialmente os britânicos que encontram no pub um pedaço de casa longe de casa.

MF: Qual a melhor parte em ser um dono de pub em Luxor?
S.G.: A melhor parte é estar conhecendo pessoas novas todos os dias, de todos os cantos do mundo… Sempre aprendo algo novo.