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Já gostei bastante de rave. Frenquentava não tão “acidamente”, mas sempre tinha uma ou outra que eu ia. Também já ouvi falar de gente que gostava de ir em raves, até muito mais que eu, que curtia música eletrônica, porém não usava nenhum tipo de droga. Eu não entendia como uma pessoa podia se sentir parte de tal grupo, tão frequentemente, e mesmo assim nunca usar. Até o dia de hoje.

Fomos, por indicação, até um centro de ioga em Bali, onde ocorre uma dança “diferente”, todos os domingos. Assistimos um vídeo antes e já tínhamos idéia do que esperar – mais ou menos: algo do tipo “dance do jeito mais maluco e movimente seu corpo do jeito que lhe der na telha”. Bom, fomos conferir…

Chegando no lugar, vimos uma galera se amontoando na área. Já tínhamos a informação de que era preciso chegar cedo pois os ingressos acabavam rápido. Eles começam a vender às 10am para a dança começar às 11am. Antes de pegarmos nossos ingressos, conhecemos uma alemã que tinha acabado de sair da aula de ioga e nem sequer sabia dessa aula de dança.

As vendas de ingresso começaram (+/- US$10 por pessoa) e então nos despedimos. Já na fila, não mais de 5 minutos depois, vimos a mesma alemã para comprar o convite, dizendo que uma outra pessoa acabara de lhe contar da dança também e que então ficou curiosa. Compramos. Sentamos um pouco para conversa em uma área livre antes do negócio começar. Numa conversa sobre nacionalidades, acabamos envolvendo mais uma pessoa, que também nasceu na Alemanha porém cresceu em diferentes países. Assim, tínhamos o grupo formado, todos pela primeira vez, todos parecendo muito normais demais para o que estávamos prestes a presenciar.

Subimos juntos para o espaço designado. Já havia uma galerinha rolando no chão, alguns dançando, outros se preparando e um monte chegando. Achamos nosso canto, começamos a mexer o corpo, meio como numa festa qualquer, de um lado pro outro com os braços balançando. Aí começamos a entrar num estado mais intrapessoal. De repente era como estivesse só, num mundo desconhecido, querendo me adaptar. Nisso, o número de gente rolando no chão diminui, continuam alguns, que se enrolam em pares, movimentando as mãos numa tentativa de fazer um nó e nunca conseguem – e nunca acaba. E você começa a ter vários pensamentos…

Primeiro começa com um “medo”, pois pensa estar sendo julgado por todos – provavelmente porque o está fazendo nesse exato momento. Depois começa a querer entender por que todos estão tão a vontade e você não. “Será que eles realmente não estão nem aí com o que os outros pensam deles?” – só pode ser, a julgar pelos que não estão mais no chão, mas agora em pé, abraçados, estáticos, a não ser por um movimento brusco e rápido de como quem acaba de tomar um choque, e voltam a ficar completamente estátuas, até o tal movimento de choque interromper novamente.

Evito totalmente os contatos visuais – “vai que querem me abraçar e não se mexer mais, e começar a dar choque”. Então vem o pensamento de que, na verdade, quem está livre são eles que estão fazendo o que bem entendem. Talvez, esse seja o grande propósito de eu ter vindo, pra começar a entender que o que os outros pensam de mim não deve interferir em nada nas minhas escolhas. E então as mãos começam a relaxar e balançar mais veemente. O músculo do pescoço já não está tão rígido, deixando que a cabeça entre no rítmo da música, ainda que lentamente.

De repente, você percebe que o diferente ali é você, e que nunca vai poder julgar se esse momento te faz bem ou mal caso você não sinta-se como parte de um todo. E eu começo a ver que há uma intereção muito semelhante às raves que eu frequentava – tirando a música, que varia de estilos a cada faixa tocada. Tem um pulando de um lado para o outro sem parar, o tempo todo, rindo pra todo mundo. O outro continua no modo estátua-choque com uma outra menina, quem, minutos atrás estava no mesmo modo estátua-choque com uma terceira. A propósito, essas duas estavam tão em transe que, ao final da música, eu pude ler o pensamento delas como se tivesse legenda: “você não é lésbica, é?” Não, não sou”. E cada uma saiu para um lado e não as vi mais juntas.

Muitos saem rindo e cumprimentando todo mundo. Aí você começa a buscar o contato visual um pouco mais – ainda evita os que fazem a dancinha estátua-choque. Nessa procura você já está pulando, sua cabeça está mexendo num ritmo tão conforme as batidas da música, que você não percebe seus movimentos. Alguém passa. Você ri pra pessoa – um pouco com receio. Ela ri de volta. Você se mexe mais.

Agora já se sente livre. É como se tivesse ganhado a permissão para fazer o que te der na telha. Ninguém vai se importar e você não vai estar nem aí se alguém se importar. Esse contrato, já assinado, entra em vigor instantaneamente, e você pula e se mexe, seguindo o ritmo da música, de tal forma que nem a canseira bate – leve em conta o calor Balinês!

dança extática em Ubud

Aí você se dá conta que tinham mais pessoas com você e que uma delas é seu par. Como o tal (psi)contrato já estava assinado, você não vai se importar se sua dança está sendo aceita pelo seu par ou pelas pessoas que acaba de conhecer. Você também não vai se importar se elas assinaram esse (psi)contrato ou não. Vamos ser felizes. Vamos dançar até não aguentar mais. Vamos pular, vamos pular, vamos pular (não, péra…. não quero tomar esse caminho…).

Um êxtase tão forte toma conta que parece estar sobre o efeito de ecstasy. Mas não, é quase meio-dia ainda, ninguém está usando drogas. É felicidade pura.

Há alguns momentos de “realidade” em que você volta a pensar que isso só pode ser um absurdo. Em tal ponto, num desses momentos, cheguei a comparar com um monte de macacos numa jaula. Realmente pareceu, pulando (ah ah ah, ih ih) como macaquinhos mostrando os dentes. E principalmente quando olhava a menina com o menino fazendo a tal dança estátua-choque. O choque parecia que saia da cintura, era algo sensual, parecia que eles estavam buscando o êxtase através do contato; porém me incomodava por ser assim ao ar livre. Talvez a sensualidade me vinha à tona e eu sou um pouco conservador nesse assunto, porque acho que esse tipo de sensação deva ser mais privado, mais pessoal. Tentava evitar olhá-los para voltar a sentir essa alegria pura novamente. E ela vinha, como estipulava o contrato.

Até que de repente a música fica bem lenta. Você percebe a canseira. Tem sede. Começa a soltar o corpo bem lentamente, como que alongando os músculos. Baixa a cabeça até a altura dos joelhos, alonga o pescoço. Outros voltam pro chão, rolando. Uns deitam, outros meditam. Cada um, realmente, faz o que der na telha.

Tudo para e o DJ (ah, sim, tinha um DJ, como numa rave) pega um violão e todos se aproximam. Ele canta uma música que varia do inglês para o espanhol, e vice-versa. Uns, que aparentemente não conheciam a letra, começam a cantar as partes que se repetiam. Era uma energia boa, mas sou suspeito nesse caso porque sempre fui muito fã de luaus. A música acaba, todos formam uma grande roda, todos dão as mãos e ficam em silêncio.

O DJ começa a falar, em um inglês perfeito, para pensarmos na natureza, na água, e venerarmos a água. E de repente estão todos fazendo o “Ommmmmm” de meditação. Ele fica quieto, meio que dando a entender que acabou, mas ninguém se mexe, até ele falar que acabou e para voltarmos sempre.

Uma experiência diferente. Te faz ver que a felicidade está dentro da gente e que catalisadores (sim, drogas) não são essenciais – mesmo que muitos achem necessário. De qualquer forma, acho tudo muito positivo, mas me pego a pensar em seu propósito… A entrada é 10 dólares, são 150 pessoas mais ou menos. Ou seja, numa sessão de 1h30 foram 1500 dólares ganhos. Havia um balinês, que parecia balinês mas interagia com todo mundo como se fosse gringo. O resto era tudo gringo mesmo. Até que ponto isso é benéfico já que não existe interação local? Ah, mas talvez os locais não curtam isso. Será? Então isso é coisa de gringo somente? Não creio, pois os locais veneram e muito a natureza e são extremamente do bem. Talvez o dinheiro. Pode ser. Mas por que algo que induz ao espiritualismo tem que cobrar tanto (em Bali isso é muita grana)? Já sabendo que isso segregaria locais e forçaria somente a ida de viajantes. Não sei até onde deveria acreditar 100% em seu propósito, mas de qualquer forma, a experiência pessoal foi válida.