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Diário da nossa vida na África (relato de quando moramos por 5 meses em um orfanato no interior do Quênia)

Os últimos dois dias foram bem intensos…

Pra começar, uma das crianças passou mal. Nós tínhamos reparado que ele estava muito calado, mas não pensamos que fosse nada sério. No entanto, um pouco mais tarde naquele dia, um dos trabalhadores o encontrou completamente inconsciente. O Tiago o pegou no colo e correu para a cozinha. As pessoas que estavam ali começaram a massagear seu estômago acreditando que o mal fosse na barriga. Como nada parecia acordá-lo, o cozinheiro resolveu chamar o padre, que na verdade trabalha no local como carpinteiro.

Com a criança no colo do Tiago, o padre começa a exorcizar o menino! A cena foi muito chocante, especialmente porque o padre estava pressionando a barriga do menino tão agressivamente que não nos surpreenderíamos se ele acordasse. O padre continuou com a sessão de exorcismo a tal ponto que até mesmo o Tiago estava começando a acreditar que a criança estava possuída. Até que a Fernanda interrompe a sessão, pedindo para o padre parar, pois parecia estar machucando o menino.

Enquanto o exorcismo acontecia, tentávamos contatar um táxi para nos levar ao hospital urgentemente. Quando a Fernanda correu para o portão para tentar encontrar ajuda, ela viu que a médica que tinha marcado de visitar o orfanato naquele mesmo dia, tinha acabado de chegar.

A médica começou a pressionar muito forte o peito do menino, que gritava com ainda mais força. Éramos quatro pessoas segurando seus braços e pernas enquanto ele esperneava e gritava e a doutora continuava. De repente a criança recobra a consciência, levanta e vomita.

Mesmo depois de toda a cena, o padre ainda achava que a causa do mal estar teria sido a possessão pelo demônio… assim como muitos dos outros trabalhadores que estavam presentes que também achavam que o menino tinha sido possuído. Vai entender. É melhor não disctutir.

Só sabemos que foi realmente assustador ver o pequeno completamente inconsciente e ainda por cima éramos os únicos voluntários no local. Muitas coisas passaram pela nossa cabeça, mas felizmente ele estava bem e descansando.

Os médicos

vida na África

Passado o susto, a doutora então começou a examinar as outras crianças, que era o motivo inicial de sua visita.

Era uma médica e um enfermeiro e a primeira estava fazendo uma consulta geral, enquanto o segundo realizava testes de HIV. Para nossa grande tristeza, uma das meninas que mora ali foi diagnosticada soropositiva. Ela foi a única notícia negativa entre as 24 pessoas testadas (22 crianças e 2 voluntários), mas ainda assim estávamos muito tristes com tudo aquilo. Ela ainda é muito nova e então não saberá de nada até que tenha 10 anos, idade que contarão para ela sobre sua condição.

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Depois que os médicos foram embora, nós fomos passar a noite e o dia seguinte ajudando em um instituto que cuida de crianças com deficiência, localizado perto de onde moramos.

St Francis Missiani

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St Francis

Vamos começar com uma pequena descrição da região, que é muito mais verde do que a área que estamos (apesar de estarem a apenas 30 minutos de distância um do outro). O instituto fica em um morro e eles têm pé de abacate, banana, abóbora, manga, tomate, além de batata, batata doce, uma vaca e alguns frangos.

As crianças são incríveis e, pra começo de conversa, elas que fazem tudo no local. Elas cozinham, limpam e ajudam os que se encontram em maior dificuldade… A idade varia entre 8 e 14 anos e eles são muito inteligentes. O Tiago ficou brincando de jogo da memória com algumas das crianças e perdeu todas as vezes! Todos falam inglês fluentemente e são extremamente educados. Quanto aprendizado!

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St Francis

A comida não era muito boa, o banheiro razoavelmente limpo e o quarto que dormimos era horrível. Na verdade, mal conseguimos dormir por causa dos pernilongos. Mas ainda assim, foram as 30 horas de maior aprendizado durante toda a viagem.

 

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Orfanato

Resumão dos dois dias intensos…

Já estamos de volta ao nosso orfanato e toda essa experiência no Saint Francis nos fez perceber que deveríamos estar dando mais responsabilidades às crianças com quem trabalhamos. A vida não tem sido fácil para elas, mas ao mesmo tempo, elas têm muita sorte de estarem onde estão e são muito felizes na sua atual realidade. Nós também. Muito felizes. Ter a oportunidade de entrar em contato com a cultura queniana e aprender sobre tudo isso é algo que nunca imaginamos que pudesse acontecer em nossas vidas.