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Nunca fomos grandes entusiastas do mar, quer dizer, gostamos de mar, de praia, de nadar, de tomar nossa cervejinha na areia, mas vida marinha? Nops, nunca.

Nadando com Tubarão-baleia

Ti com o tubarão-baleia

Isso tudo mudou quando viajamos para Moçambique por duas semanas com um casal de amigos canadenses recém-conhecidos que, além de muito queridos, eram biólogos.

Nós tínhamos nos conhecido no Malawi e nos demos tão bem que decidimos passar as próximas 3 semanas viajando juntos. Foi assim que chegamos em Moçambique com planos de explorar a costa do país. Acontece que ainda no começo da viagem e por recomendação de outros dois australianos que tínhamos conhecido também no Malawi, fomos parar na Praia do Tofu.

A Praia do Tofu

Vamos colocar de maneira bem simples: a Praia do Tofu é um paraíso. Uma dessas praias pequenas em que todos se conhecem, a comida é fresca e barata, as festas são boas e as coisas funcionam tão bem, que o lugar está cheio de comunidades de viajantes que foram pra lá passar alguns dias e resolveram se mudar de vez.

Tofu também é conhecida por ser uma das melhores áreas de mergulho do mundo, coisa que obviamente, desconhecíamos. E lá estava cheio de mergulhadores, entusiastas e biólogos.

Nadando com um tubarão-baleia

Enquanto nós curtíamos uma cervejinha no bar, ou uma sinuca no hotel (aliás, ficamos hospedados no Fatima’s Nest e recomendamos muito), nossos amigos Emily e Dave se empolgavam com as possibilidades de mergulho disponíveis. Era junho, época de acasalamento das baleias e o mar estava agitado, cheio de animais raros.

O Dave e a Emily eram tão apaixonados por mergulho que foram eles os responsáveis por plantar na Fê essa vontade de fazer o curso do PADI.

Safári no oceano

Tubarão-baleia

Os assuntos que tomavam conta das rodas de conversa de todos em Tofu, eram quase sempre o mergulho e os safáris no oceano. Sem contar nas discussões entre as pessoas que tinham dado a sorte de ver um tubarão-baleia e as que, apesar de várias tentativas, não tinham conseguido ver o animal em extinção.

Nós que só sabíamos o que era um tubarão-baleia pela televisão, começamos a nos empolgar com aquela história de nadar com eles. O tubarão-baleia é na verdade um tubarão que pode chegar até 19 metros mas é vegetariano e só se alimenta de plânctons.

Enfim, a nossa curiosidade foi crescendo, até que um dia, o Dave e a Emily vieram nos convencer a fazer o tal do safári no oceano, que nada mais e do que um safári, mas… dã! No oceano.

O problema é que o safári custava 50 dólares, durava 3 horas e não tinha garantias de ver bicho algum, até porque, graças ao bom senhor, os animais estão em liberdade.

Diante do nosso dilema, os dois queridíssimos resolveram nos dar o passeio de presente, já que, coincidentemente era nosso aniversário de casamento. E assim não tínhamos como negar e fomos!

O dia do safári

Tubarão-baleia

Acordamos muito cedo e fomos para a escola de mergulha receber instruções básicas de como nos comportar caso encontrássemos o tubarão-baleia. Apesar do passeio de barco estar a procura de todos os animais como arraias gigante, tartarugas, baleias e golfinhos, a principal estrela era o tal do raríssimo tubarão.

Aprendemos que deveríamos nos segurar bem no barco, pois o mesmo viajava em alta velocidade; nos recomendaram ficar de olho no mar e no horizonte para tentarmos avistar os animais; e o mais importante, caso entrássemos na água com o tubarão-baleia, para jamais tocarmos nele, pois o mesmo se sentiria ameaçado e fugiria imediatamente.

E assim nossa ansiedade foi crescendo. Como o mar tinha um pouco de água-viva, também fomos aconselhados a usar uma camiseta pra evitar queimaduras.

E lá fomos nós pro mar. Todo o grupo de umas 8 pessoas, mais 3 capitães, ajudando a colocar o barco na água.

A viagem começou e realmente a velocidade era muito alta e todos nos segurávamos bem às cordas adjacentes ao barco.

E foi aí que começamos a descobrir um mundo ainda completamente novo para nós. Durante o passeio, enormes Baleia Jubarte (humpback whale) saltavam, esguichavam água pelo orifício respiratório, ou acenavam constantemente com suas nadadeiras. Era a coisa mais linda.

Depois de 2 horas de passeio, já tínhamos visto inúmeras baleias, mas ainda nada do tubarão-baleia. A ansiedade de todos crescia, juntamente com a frustração de ter que voltar pra casa sem ver o principal desafio.

Até que, de repente, o capitão parou o barco e apontou para a água “Ali, ali!! O tubarão!”

Nós olhamos pra lateral do barco, a uns 5 metros de onde estávamos, sem acreditar que aquela silhueta gigantesca e perfeita de um tubarão pudesse estar tão próxima a nós.

Foi dada a ordem: “Podem entrar na água!”

O Tiago não podia acreditar: “O quêêê?! Entrar com esse bicho aí???”

Mas já que todos entraram, não restava mais nada a fazer, a não ser pular no mar também.

O tubarão-baleia era enorme, devia ter uns 7 metros e era uma das coisas mais lindas e perfeitas que já vimos. Todo malhadinho com bolinhas brancas, diferente de tudo que tínhamos imaginado.

Ele nadava sem parar, bem devagar, quase que em um estado de transe, as vezes se aproximando mais da superfície, e as vezes descendo um pouco.

Tubarão-baleia

Nosso grupo tentava acompanhar os passos do grandalhão, com calma para não assustá-lo. Todos sincronizamos com o ritmo do tubarão- baleia, deixando que ele ditasse as regras da dança. E foi lindo. Foram uns dos 30 minutos mais incríveis da vida. Dessas conexões com a natureza que muitas vezes nos esquecemos que existem. Estávamos tão próximos do tubarão, a menos de um metro, nadando em total liberdade.

O medo que sentíamos no começo, voltava quando nos aproximávamos demais da boca ou da cauda. Ele era tão grande, mas tão dócil ao mesmo tempo.

A experiência nos mudou, como tantas outras durante a viagem. Essa nos fez respeitar mais os oceanos e abrir os olhos para esse mundo que coexiste com o nosso. Poder ser expectador desse universo tão distinto, foi marcante.

 

O que aprendemos

Começamos a entender depois por que os tubarões-baleia são tão raros. Aparentemente, um dos seus maiores predadores são os chineses que, os caçam para tirar sua barbatana, pois segundo a cultura chinesa, tem poderes afrodisíacos. Sem contar que também é sinal de status ter uma barbatana de tubarão-baleia na porta de sua casa ou loja. Triste realidade.

O Dave e a Emily também nos contaram que em uma das palestras com biólogos que tinham assistido ali em Tofu, disseram que era comum avistar da praia, grandes navios pesqueiros chineses caçando tubarões-baleia. Mas como isso era possível sendo que o animal está em extinção e sua caça é proibida em Moçambique?

Simples, o governo chinês teria comprado já parte da costa moçambicana, tendo assim permissão para fazerem o que quiserem.