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Antes de mais nada, fiquei muito feliz com o convite para escrever para um blog tão legal, de um casal mais legal ainda. E, considerando que a gente se conheceu na Rússia, nada melhor que aproveitar para falar um pouquinho mais sobre o país. E, melhor ainda, falar sobre um assunto que raramente é lembrando quando se trata desse enorme país: o mergulho.

Pois é. Quando falamos de mergulho, a maioria das pessoas imediatamente lembra dos destinos tropicais, com águas quentes e claras, muitos peixinhos coloridos e recifes cheios de coral. Já a gigante Rússia, famosa pelo frio intenso em boa parte do seu território não parece ser um lugar onde alguém vai querer passar quase uma hora embaixo da água. Afinal, o que tem para ver em água fria?

diving into cold water

Muito bem, com essa pergunta em mente, escolhi visitar uma região bem específica do país: a República da Carélia, nas proximidades do Mar Branco. Antes de mais nada, sim, a água é muito fria. Para lidar com isso, a primeira coisa que um mergulhador precisa fazer é aprender a mergulhar usando uma roupa especialmente feita para esses casos. Esquece aquela roupinha fina de neoprene. A roupa seca (ou dry suit, como é mais conhecida) pode até ser feita de neoprene, mas ela não fica totalmente colada no seu corpo. Ela é feita para ser preenchida por ar e não por água. Assim, sem água circulando e com uma camada de ar isolante, conseguimos manter o corpo em uma temperatura razoável usando uma roupa quentinha por baixo da roupa de mergulho. Além disso, o traje fica completo com um bom capuz e luvas. No final, só uma parte pequena do rosto costuma ficar exposta à água fria (existem máscaras full face que resolvem até este problema).

Um detalhe. Quem já mergulhou sabe que lidar com a flutuabilidade costuma ser a maior dificuldade do iniciante no mergulho. A roupa seca transforma qualquer um em iniciante de novo. Agora você tem uma roupa cheia de ar, fazendo com que partes aleatórias do seu corpo, principalmente as pernas, queiram subir para a superfície. Exatamente por isso, todas as certificadoras de mergulho têm um curso específico para quem quer aprender a usar a roupa seca.  E, antes de mergulhar com ela, é preciso treinar.

Devidamente certificado e treinado, vamos aos mergulhos.

A República da Carélia é umas das entidades federativas que formam a Rússia. Ela fica na região noroeste, na divisa com a Finlândia (na verdade, a Carélia e o povo carélio estão também na Finlândia e existem desde o século XII). O ponto escolhido para o mergulho foi o Mar Branco, que é um braço do Mar de Barents. É um dos poucos mares do mundo que congelam durante o inverno, o que explica o seu nome. A cidade mais próxima do ponto de mergulho escolhido é Chupa (por favor, sem trocadilhos infames).

Chegar lá envolve enfrentar as longas distâncias típicas da Rússia. São quase 1000 km desde São Petersburgo ou 1500 km de Moscou. A cidade fica localizada bem no Círculo Polar Ártico. Já deu para perceber que é frio né? A água salgada consegue chegar até perto dos 2 graus negativos antes de congelar. E essa é a temperatura típica no inverno. No outono, quando eu estive ali, a temperatura estava perto dos 5 graus. Nos mergulhos mais profundos, perto dos 20 metros, a temperatura chegava mais perto do zero.

E o que ver nesta água tão fria? Um conjunto de invertebrados fenomal, quase impossível de serem encontrados em águas quentes. Em particular, nos pontos mais frios, dá para se encontrar a vida marinha típica do ártico: estrelas do mar, águas vivas, pequenos crustáceos e anêmonas. Muitas anêmonas. Elas são o principal destaque de boa parte dos mergulhos (os pontos de mergulhos têm nomes como Jardim de Anêmonas, Pedra das Anêmonas…). Então, o barato ali é curtir mergulhos lindos com jardins incríveis e pequenas criaturas, únicas do local.

Ok. Anêmonas. Mas é só isso? Eu sou um grande fã de anêmonas e isso seria suficiente para me fazer enfrentar a água fria do Ártico, mas não. Não são apenas anêmonas. Ali no Ártico, é possível encontrar um dos animais mais simpáticos que vivem nos oceanos. As belugas. Elas são cetáceos, parentes dos golfinhos e baleias (inclusive, são chamadas de baleia branca com frequência). É um animal super dócil, bastante curioso e muito sociável (o que, infelizmente, acaba sendo o principal problema para eles na natureza). Adultos ficam completamente brancos e chegam a 5 metros e 1,5 toneladas. Mergulhar com elas é um show incrível. Elas se aproximam e interagem muito com o mergulhador. Se comportam basicamente como um filhotinho. Dá “mordidinhas” bem suaves no equipamento e na mão do mergulhador para entender o que é aquilo, faz bolhas e “aposta corrida” com o mergulhador. Experiência incrível, que justifica fácil mergulhar em águas tão frias.

belugas


A parte prática

Como ir até lá

Existe uma operadora de mergulho nesta região. A Arctic Circle Dive Centre, ligada a um grupo grande de mergulho na Rússia. Dá para chegar até lá de trem, parando em Chupa. De Moscou até lá são 30 horas (nada muito absurdo em termos de Rússia). Existe um aeroporto razoavelmente próximo também. A equipe da operadora faz um transfer para todos os lugares próximos (trem, aeroporto e cidades maiores da região, como Murmansk, mais ao norte e facilmente acessada pela Finlândia).

A estrutura do Dive Center é muito boa, com sauna, comida bem gostosa e uma floresta nas proximidades, onde é possível fazer alguns hikings curtos. No outono, as temperaturas ficam próximas de zero. No inverno, faz muito frio, mas é possível aprender a mergulhar no gelo e experimentar essa modalidade bem pouco conhecida.

O preço

Sim, é caro. Espere gastar cerca de 1 mil euros por quatro ou cinco dias de mergulho, com acomodação, comida e equipamento inclusos.

Enfim, a vida aquática em águas geladas pode ser surpreendemente interessante. Muitas cores e uma grande variedade de formas. E, com o equipamento certo, sem passar frio.


Sobre o autor

ed

Edgar Perlotti é mineiro de nascimento, paulistano por bastante tempo, mergulhador e entusiasta do montanhismo, cicloturismo, kayaking e tudo que tenha a ver com o mundo outdoor. Neste momento está fazendo uma viagem de volta ao mundo sem data para acabar.

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