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Kiti Nopphakhun tem uma história parecida com a de muitos lutadores de Muay Thai tailandeses. Ele vem de uma área pobre no norte da Tailândia chamada Sakhonkorn, em que a maioria das pessoas sobrevive da terra e onde a comida é privilégio apenas durante as temporadas de chuva. Aos 10 anos de idade começou a lutar porque precisava de dinheiro para comer, ajudar em casa e comprar material escolar. A cada vez que ganhava uma luta, recebia 20 baht (R$2). “Meu pai gostava que eu lutasse. Ele costumava lutar também, mas sem luvas, como antigamente. Minha mãe não gostava, mas eu tinha dinheiro para ajudá-la e ela aceitava. Quando eu me machucava ela chorava”, conta ele.

muay thay fighter

Foto de Katerina Marsounova

A diferença é que Kiti era um lutador por natureza e sua habilidade, força de vontade e ossos extremamente resistentes fizeram com que ele criasse um nome no ramo do Muay Thai. Quando tinha 13 anos, olheiros de Bangcoc convidaram para ir treinar na capital. “Dormíamos no lugar do treinamento, eles nos davam comida, mas tínhamos que lutar. Era pesado e exigiam muito da gente. Eu lutava e ganhava sempre”. O preço que pagou pelas vitórias foi passar dois anos sem lutar, porque ninguém queria apostar contra ele com medo de perder dinheiro.

Kiti mudou de nome e foi pro sul do país tentar a sorte. Lá, mais vitórias e a vida foi se resumindo a sua habilidade de lutar e ganhar dinheiro. “Uma vez eu peguei uma infecção muito feia na perna e estava cheio de feridas com pus na canela. Antes da luta, como sempre, um médico veio me examinar. Ele apertava as feridas com muita força e doía muito. Mas eu não falei nada, porque se reclamasse não poderia lutar e eu precisava do dinheiro para enviar aos meus pais. Eram 200.000 Baht (R$22,5 mil) para o vencedor e eu ganhei. Chutei apenas com a perna boa”. Ele tinha 17 anos.

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Pra nossa grande felicidade, atualmente o Kiti está gerenciando e dando aulas em uma nova academia de Muay Thai, em Ko Lanta. Para mais informações, acesse a página deles no Facebook Klong Dao – Muay Thai, training and fitness.

Kiti lutou mais de 300 vezes, perdeu 40 e nunca sofreu um nocaute. Ele sempre foi muito disciplinado. “Eu queria ganhar e quando perdia ficava triste. As vezes ficava nervoso porque sabia que meu oponente era melhor, mas aí eu treinava mais ainda. Eu nunca tive medo do meu oponente. Treinava, aprendia bastante e acabava ganhando. Meu osso é forte e os outros têm medo de me chutar e se machucar”.

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O campeão é budista, tem 42 anos e uma estatura pequena que engana. Hoje em dia ele trabalha como instrutor de Muay Thai no sul da Tailândia e se destaca dos outros instrutores que conhecemos pelo seu coração gigantesco, competência e paciência em ensinar. Kiti se doa a qualquer aluno que tenha força de vontade e que confie nele para aprender Muay Thai. Ele vai além das técnicas de luta e, com seu inglês básico, ensina a filosofia do combate e dá lições de vida. Acredite, ter um homem desses como mentor, foi uma das melhores experiências que tivemos na Tailândia. No final, ele deixa claro: “pra lutar tem que ter bom coração, quem não tem bom coração nunca se tornará um bom lutador de Muay Thai”.

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*Todas as fotos foram tiradas do conta do Facebook do Kiti