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Acho que já passou da hora de contarmos o que estamos fazendo aqui no Quênia e como é a vida de voluntário.

(Des) Informações

Quando decidimos largar tudo e viajar, resolvemos que uma das primeiras paradas seria a África. Tínhamos muito receio, pois as informações que recebemos sobre esse continente são geralmente negativas e o desconhecimento é total. Mesmo quando escolhemos o Quênia por ser um dos países com maior estabilidade política, muita gente perguntava se não tínhamos medo do Ebola….

vida de voluntário

Bem, a África é um continente imenso e a epidemia era no oeste e o Quênia no leste! – Tecnicamente, o Ebola está mais perto do Brasil do que do Quênia, se não fosse o oceano separando os dois continentes.

Por que África? E por que voluntariar?

Muito mais do que visitar o país, queríamos senti-lo, saber como vivem as pessoas e entender como a cultura africana ajudou a moldar a identidade brasileira. Foi assim que resolvemos passar um tempo mais longo por aqui. E para isso, que melhor maneira do que viver o dia a dia com eles? Então, por que não trabalhar voluntariamente?

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Participando de um encontro escolar

O sonho não era especificamente fazer trabalho voluntário na África, porque voluntários são necessários em qualquer lugar do mundo (principalmente no Brasil), mas voluntariando aqui, acabamos unindo o útil ao agradável: vivenciamos de perto o dia a dia das pessoas e ajudamos a comunidade.

Como encontramos a organização certa?
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Fazendo graça com as crianças

Também queríamos uma organização menor, que nos desse oportunidade de trabalhar mais ativamente. Quanto mais procurávamos ONGs, mais nos decepcionávamos. Parecia que a maioria dessas organizações visava o lucro e que mesmo os voluntários estavam mais preocupados em inflar sua própria auto-estima do que realmente ajudar.

Depois de muita pesquisa, encontramos uma organização espanhola chamada Más por Ellos, que trabalha em parceria com uma ONG local chamada Lisha Mtoto, há dois anos.

A medida que líamos sobre eles, mais nos encantávamos. A transparência, os valores e o trabalho pareciam muito sérios. Após muita troca de emails e alguns skypes, decidimos nosso destino e aqui estamos. Até agora, temos certeza de que essa foi nossa melhor escolha.

Como surgiu a Mas Por Ellos?
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Álvaro, o fundador da Mas Por Ellos

Álvaro Perez-Pla, o fundador da Más por Ellos, viajou ao Quênia em 2010 para trabalhar em uma ONG. Foi lá que conheceu seu atual parceiro, Erick Kyalo, o fundador da Lisha Mtoto (Alimente as Crianças, em Swahili).

Naquele ano, enquanto voluntariavam juntos, descobriram que a organização que estavam ajudando era na verdade extremamente corrupta. Com outros voluntários, questionaram o dono do projeto e a história acabou com Erick se demitindo e Álvaro retornando a sua terra natal, Espanha. Essa ONG foi – com esforço de muitos – fechada, mas infelizmente o dono conseguiu abrir uma outra e continua arrecadando dinheiro para uso indevido.

A amizade dos dois e a vontade de ajudar permaneceram e em 2011 Álvaro voltou ao Quênia por um breve período para ajudar Erick a criar a Lisha Mtoto. Em 2013 ele retorna novamente para montar a Más Por Ellos e, juntos, construírem esse orfanato que agora vivemos, o Lisha Mtoto Children’s Home.

Cidade de Tala
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Tala vista do alto

A cidade que estamos, como já falamos anteriormente, fica a alguns kms de Nairóbi, uma região rural de maioria Kamba (uma das 42 tribos que formam o país). Erick nasceu por aqui e também é Kamba, o que facilita a comunicação com as muitas das pessoas que nem sequer falam a língua nacional Swahili, imagine Inglês.

Saiba um pouco mais nesse texto Mzungu no Quênia!

Fica difícil dar informações demográficas sobre Tala, já que cada pessoa fala uma coisa e não existe nada muito documentado – as próprias pessoas não têm documentos e nem sequer sabem sua data de nascimento.

Segundo o chefe da região (equivalente a um prefeito, mas que também cuida de assuntos de cunho familiar e etc) há em torno de 30 mil pessoas vivendo aqui e a principal economia é a agricultura.

A vida aqui
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Indo pra escola!

A terra é bem seca e é comum faltar água para as shambas (nome que se dá às plantações). Existe muita pobreza, mas não miséria. Por conta da grande quantidade de shambas, as pessoas não passam fome (no entanto, é comum famílias que sobrevivem com apenas uma refeição ao dia). A religião é fator predominante e há quase mais igrejas do que casas.

Contamos também sobre a história da indepêndencia do Quênia aqui.

O orfanato
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O pastor e carpinteiro que fez todos os tetos do orfanato, Patrick

O Lisha Mtoto Children’s Home atende no momento 20 crianças de 7 famílias, todas órfãs provenientes da região. O local está aberto desde dezembro de 2014, mas muitas instalações ainda estão em construção.

Antes de virem pra cá, muitas viviam em situações precárias, sem supervisão e não frequentavam a escola. Agora, todas comem três vezes ao dia, dormem em uma cama, têm roupas, estudam, entre outros cuidados básicos.

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Algumas das crianças indo pra escola

Uma das coisas que mais nos impressionou aqui foi a rápida adaptação dessas crianças a sua nova vida. Quase todas, ao se mudarem para cá da casa de parentes, não demonstraram tristeza e após poucas horas de sua chegada, já estavam sorrindo e extremamente integradas. E isso não é uma característica isolada às crianças, os próprios guardiões parecem ter uma facilidade em entregá-las – muitas vezes já fomos parados na rua por pessoas implorando para que levássemos seu filho, neto ou sobrinho.

Antes de fazer algum pré julgamento, leia esse nosso texto sobre perspectivas.

Fica difícil saber se isso se deve a um fator cultural ou se simplesmente estão esperançosos em ter uma vida melhor.

O que fazemos
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Plantando duas árvores antes de irmos – ritual de voluntários!

Nosso trabalho por aqui envolve diferentes tarefas… Domésticas como dar banho e alimentar. Outras de cunho mais social como educar e passar valores. Econômica como ajudar a pensar nos gastos do lugar e criar projetos para torná-lo auto sustentável financeiramente, entre muitas outras coisas.

Olha o que aconteceu com a gente num período de 2 dias no orfanato!!

A Más por Ellos e a Lisha Mtoto têm como fundamental o desenvolvimento sustentável. A idéia é que esse local funcione dentro de algum tempo sem doações ou ajuda de voluntários internacionais. Para isso, uma integração com a comunidade local é imprescindível.

Pode parecer uma tarefa fácil, mas ao se tratar de pessoas extremamente humildes, sem escolaridade e muitas vezes sem base familiar alguma, as coisas se tornam um pouco mais complicadas. Sendo assim, para atingirmos o objetivo primordial, temos que, de certa maneira, prover também uma maior estrutura para a comunidade como um todo, oferecendo mais oportunidades e desenvolvendo diferentes setores da sociedade.

Os projetos
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Fe com os meninos de St Francis Missiani

Por exemplo: temos um programa de micro crédito em que ajudamos financeiramente e estruturalmente pequenos negócios; tentamos desenvolver projetos que possam trazer algum tipo de inovação e gerar empregos; apadrinhamos crianças de famílias carentes para que essas possam frequentar a sala de aula; oferecemos acompanhamento social para as famílias das crianças que moram aqui; damos atividade física aos alunos do colégio local, além de palestras de orientação sexual e outros assuntos importantes.

Também buscamos exemplos de sucesso e superação na comunidade e tentamos criar algum tipo de intercâmbio entre as pessoas para que elas estejam mais envolvidas e interessadas na melhora e desenvolvimento da região. Enfim, tanta coisa que não cabe aqui. Percebemos que três meses seriam insuficientes para colocarmos em prática nossas ideias e projetos e por isso ficaremos mais.

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A família Sharon, Mutua e Kioko 😉

Fica aqui então essa pequena introdução ao trabalho da ONG que estamos ajudando. Para quem estiver interessado, informações sobre a Más por Ellos, Lisha Mtoto, Álvaro, Erick, as crianças e tudo mais podem ser encontradas no site www.masporellos.org.

O que mais?
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Entrada da favela de Kibera

A Más por Ellos também mantem projetos em Kibera, a maior favela da África, que está localizada na capital do Quênia, Nairóbi. O trabalho lá envolve apadrinhamento de crianças para frequentar escolas, uma escola recém-inaugurada para a comunidade, projeto de micro finanças e um projeto para limpar a – enorme!! – quantidade de lixo dentro da favela, chamado Kleanbera. Eles também inauguraram um cinema para tentar gerar renda para a organização, criar empregos e prover outro tipo de entretenimento para a região.

Se quiser fazer parte do projeto, seja voluntariando aqui ou apadrinhando crianças através de doações, pode entrar em contato pelo mesmo site que colocamos acima.