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Algo que sempre discutimos entre nós e em nossos posts é como as perspectivas afetam nossa compreensão de mundo e determinam nossos medos, coragem, desânimo e todos os sentimentos no geral. Quando saímos da nossa zona de conforto, quase que inevitavelmente ganhamos uma nova perspectiva das coisas, o que acaba por nos libertar de muitos medos e receios que até então faziam parte de nossas vidas. Um pouco confuso, né? Mas agora vamos te explicar como dar uma volta ao mundo nos permitiu enxergar isso…

entrada da barraca acampando na beira do rio na Eslovênia

Acampando na Eslovênia

Primeira perspectiva: a nossa, antes da volta ao mundo

Há algum tempo, decidimos viajar o mundo. Nós deixamos praticamente tudo o que tínhamos de material e estável para trás e embarcamos nessa aventura que, até então, não tínhamos ideia do quanto nos mudaria.

Antes de partirmos, os amigos e familiares estavam ao mesmo tempo felizes e receosos com a nossa escolha. Na verdade, as pessoas estavam em sua grande maioria com medo e muitos julgaram nossa escolha como maluca e passageira.

Nós também estávamos com bastante medo. Afinal, estávamos indo contra tudo o que até então nos fora apresentado como “correto”. Desde que eu me dou por gente, me lembro de aprender que o objetivo da vida é estudar para conseguir um bom trabalho, crescer na empresa, casar, ter filhos, comprar a casa, o carro… enfim, que eu deveria me esforçar para conquistar estabilidade e status social. Desistir, mesmo que momentaneamente disso tudo, em uma fase em que começávamos a crescer em nossas carreiras, parecia maluquice até mesmo para nós. Por isso, nunca descartamos a possibilidade de voltar para essa vida estável e “correta”.

Tiago e Fernanda em Londres com o Big Ben

Um dia de muito frio em Londres, onde morávamos antes da viagem

Nossa nova perspectiva

Hoje, após mais de dois anos na estrada, percebemos que é essa a vida que queremos. A vida “incorreta e menos segura” (sim, as vezes dá medo dessa nossa decisão, mas isso é assunto para um outro post). A questão é que cada vez mais recebemos e-mails carinhosos de pessoas nos elogiando. Palavras que nos dizem o quão corajosos e inspiradores somos. De pessoas que gostariam de tomar o mesmo caminho, mas que, segundo elas mesmas, simplesmente não têm coragem de largar a vida estável e “correta” para trás.

Nós já vivemos os dois lados da moeda, o estável e o instável, e gostaríamos de dizer a todos que nos acham corajosos pela nossa escolha de vida, que é exatamente o oposto: o corajoso é você! Nós é que temos que parabenizá-lo pela garra em continuar vivendo em um sistema todo moldado e articulado para nos controlar.

Pareceu um pouco dramático não é mesmo? Mas vou te explicar como cheguei a essa conclusão…

Tiago e Fernanda sozinhos na cachoeira em Bali

Encontrando uma cachoeira deserta em Bali

Nossa mudança

Nós decidimos dar a volta ao mundo porque:

  1. estávamos cansados de nossa rotina;
  2. percebemos que estávamos em um caminho predestinado: se casar, comprar uma casa, ter filhos, viajar uma vez ao ano, etc… e queríamos (re)tomar o controle sobre nossas decisões;
  3. precisávamos de um pouco de aventura, de voltar a sentir aquele frio na barriga que só as descobertas e o desconhecido nos trazem.

Bem, como já falei, inicialmente não tínhamos ideia do quanto essa aventura nos mudaria. Mas mudou, e muito. Foi uma jornada intensa em que desenvolvi uma conexão muito forte comigo mesmo e com o mundo ao meu redor. Desenvolvi uma sensibilidade que não sabia que existia dentro de mim. Como em um passe de mágica, as coisas naturalmente começaram a fazer mais sentido e eu obtive respostas para muitas das indagações que sempre me acompanharam, mesmo que eu sequer estivesse pensando nelas. Muitos dos medos e ansiedades que eu tinha desapareceram e as coisas pareciam mais leves e fáceis. Difícil explicar algo tão subjetivo quanto compreender a mim mesmo e de certa forma, o mundo.

pôr do sol na Tailândia com duas pessoas fazendo stand-up

Koh Lanta, Tailândia

Durante esses 2 primeiros anos de volta ao mundo, essas mudanças em nossas perspectivas e na nossa maneira de encarar o mundo eram tão óbvias, que ouvíamos constantemente das pessoas que cruzavam nosso caminho “vocês dois têm uma energia muito boa”. E acho que talvez não tenhamos nascido com essa energia, nós a “acendemos”, criamos, desenvolvemos durante a viagem.

Nós estávamos realmente felizes. E foi assim que decidimos que esta é a vida que queremos perseguir: a nômade.

Um novo momento em nossas vidas

Começamos a nos perguntar como poderíamos ganhar dinheiro com esse novo estilo de vida. E foi assim que decidimos investir tempo e recursos no Monday Feelings, para que ele se tornasse um site de viagens profissional. Sabemos bem que ganhar dinheiro com um site é um objetivo a longo termo (coisa de pelo menos 2 anos) e como precisávamos ter retorno financeiro mais imediato, lançamos uma produtora de conteúdo audiovisual, a MF360.

Nada disso foi fácil. Lemos, estudamos e pesquisamos MUITO (e ainda continuamos), antes de nos apresentarmos ao mercado. Para darmos esse passo profissional precisávamos de estabilidade e rotina. A vida na estrada não oferece nada disso e foi assim que viemos morar na Itália.

Tiago e Fernanda de bicicleta no centro de Parma com o batistério e duomo

Centro de Parma

Desde março estamos aqui “vivendo uma vida normal”. O que quero dizer com “vida normal”? Alugamos uma casa, temos um contrato de conta telefônica, tive que me registrar no médico local, aplicar para diferentes documentos que me dão direito a diferentes coisas e etc.

Você sabe como é, a burocracia da vida. Além do mais, tem conta do banco, conta pra pagar, remédios, compras pra casa, exercício diário no parque, aquele esforço a mais pra sair da rotina, sair de casa e conhecer novas pessoas.

Eu sei que isso pode soar um pouco forçado, mas pense bem: quantas vezes você já não esteve em casa (e falamos “casa”, pois trabalhamos em casa, mas para quem sai todos os dias para o escritório, seria o mesmo) e pensou “putz, preciso fazer alguma coisa além de só trabalhar, algo por mim”, e então ligou para os seus amigos? Isso é basicamente se forçar a sair de casa. Não tem nada demais com isso, mas não deixa de ser um esforço.

E hoje eu tive essa percepção. Eu me aplico a todas essas coisas que descrevi acima, estou vivendo uma vida “normal” novamente… e sinceramente, tá sendo difícil.

pessoas no centro de são paulo

Centro de São Paulo

Vida nômade Vs Vida normal

Quando estávamos constantemente viajando, não havia contratos. Você coloca dinheiro no chip do celular e usa a internet do país onde estiver. Na verdade, você quase não usa seu telefone, a não ser para se conectar à internet e falar com a família (eu sei que isso se aplica mais a mim, pois a maioria das pessoas depende do celular, mas mesmo assim). Além do mais, não existe contrato de aluguel, você paga por um hostel/hotel, ou dorme na casa de pessoas. As vezes você acha trabalho em um hotel e troca por um quarto. A questão é: você vai embora a hora que quiser.

Além do mais, você não tem que se forçar para fazer algo de diferente e sair de casa. Você já está fora de casa! Quando você está viajando, conhece pessoas todos os dias. E isso não significa ter uma rotina maluca. Por exemplo, nós passamos um mês estáveis na Tailândia. Pagamos o mês de aluguel do bungalow, tínhamos internet, nosso próprio espaço, de frente pra paia, conhecíamos pessoas novas todos os dias, estávamos sempre fazendo algo de diferente e ainda assim tínhamos um pouco de rotina (todos os dias, no mesmo horário, fazíamos aula de Muay Thai, também tentávamos trabalhar no site pelo menos duas horas por dia e etc). Era perfeito, a rotina que precisávamos e, ainda assim, tínhamos autonomia. Podíamos ir embora quando quiséssemos. Simplesmente fechar as malas e partir.

olhando o horizonte com nossas varas de pescar na Tailândia

Pescando na Tailândia

Eu me vi pensando em tudo isso hoje, pois decidimos deixar a nossa casa na Itália. Decidimos isso um mês antes da nossa partida. E percebemos que, diferentemente de antes, quando era apenas fechar nossas malas e partir, agora as coisas são bem mais complicadas. Nós temos um contrato de luz e gás. Nós temos que avisar o dono do nosso apartamento com um mês de antecedência. Nós também fizemos um contrato com o provedor da internet e deixamos claro que precisávamos da internet por apenas três meses. O cara da loja disse que tudo bem e que o nosso contrato era mensal, mas agora, adivinhe só?! Temos que pagar uma recisão de contrato que não estava especificada no nosso contrato e mais a desativação da nossa linha.

Agora estamos andando de um lado pro outro da cidade, tendo que resolver mil pendências e burocracias, com uma pasta cheia de papéis, contratos e documentos debaixo do braço. E SEMPRE aparece um novo problema, uma informação mal dada pelo sistema para nos prender a uma conta, a uma linha, a uma companhia.

E isso me fez perceber que uma “vida normal” é tão burocrática que me destitue de qualquer controle sobre ela.

mendigo com o impostômetro no centro de são paulo

Centro de São Paulo

A decisão

Você faz o que te mandam, como em um rebanho. Eles te obrigam a assinar um contrato de aluguel e você o faz. Aí, te dizem que você tem que pagar pela rescisão do contrato e você paga. Mas esse pagamento tem que ser através de uma conta no banco, então você abre uma conta no banco. Aí, você precisa pagar pelos serviços desse banco. Você continua seguindo as regras que lhe são estabelecidas, mas que provavelmente não o faria se tivesse a oportunidade (fala sério, quem aqui faria um contrato com a NET ou conta no banco se pudesse viver sem essas coisas? Se você já tentou cancelar qualquer um desses serviços, vai entender do que estamos falando…).

Para alguém que passou os últimos dois anos e meio sem contratos, sem amarras e compromissos a nada, ter que enfrentar esse estilo de vida, é assustador.

Então, aqui vai minha perspectiva sobre o assunto: viver dessa maneira é assustador. Me dá frio na barriga ter que voltar para esse tipo de vida tão burocrático e engessado, tanto quanto parece assustador viver com a liberdade que escolhemos. Mas a verdade é que você so poderá decidir qual o melhor estilo de vida pra você, depois de vivenciar os dois lados e experienciar as diferentes perspectivas.

A minha decisão eu já tomei. Qual é a sua?

pulando da rocha no lago malawi

Aventuras no Malawi