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(Essa carta foi escrita em 2016, quando trabalhamos como voluntários independentes em Atenas. Apesar de ser do ano passado, infelizmente as palavras continuam valendo).

O final do ano está se aproximando mais uma vez e aqui escrevo minha carta de Natal.

É nessa época do ano que nos vemos transmitindo nossos melhores desejos para família e amigos. Durante essa data tão feliz e sensível, costumamos desejar empatia e solidariedade até mesmo para aqueles que não vemos há um tempo ou para quem acabamos de conhecer. Escrevemos palavras de afeto para todo mundo e isso é lindo! Nós precisamos de mais momentos assim.

No entanto, neste final de ano, eu gostaria de ir além: vamos colocar um significado real a essas palavras!

Vamos enviar um Feliz Natal a todos, desejar um próspero Ano Novo e coisas boas para 2017. Mas não porque é de praxe fazer isso nessa época do ano, mas porque tem um monte de pessoas que realmente precisam que coisas melhores aconteçam em suas vidas em 2017.

O que aconteceu nesse ano?

O ano de 2016 é para ser lembrado por razões boas, mas por muitas ruins também. Para mais de 10 milhões de pessoas na verdade, ele será recordado unicamente por razões ruins (certamente esse número é muito maior).

Um pai de cinco filhos, engenheiro, com um emprego estável, simplesmente vivendo sua vida, de repente ouve uma enorme explosão. Ele acorda no meio de muita fumaça, sem entender nada, para perceber que sua casa acaba de ser bombardeada às cinco da manhã. Ele corre para cima e para baixo para verificar se toda a família está bem e se depara com o próprio pai, com o braço decepado. Este homem vê seu pai morrer na sua frente. E isso o faz vender tudo o que tinha para fugir de seu país.

Eu não estou inventando essa história. Foi o próprio homem que me contou há uma semana, entre lágrimas dos dois lados.

Fugir do seu país não é visto como um grande problema para muitos de nós, e tem muita gente reclamando desses “estranhos que não param de chegar”. Mas a realidade é que para a maioria desses estranhos, deixar sua terra natal, vem acompanhada de consequências cruéis.

Primeiro que cruzar a fronteira da Síria hoje em dia é ilegal. Segundo que a viagem é extremamente cara. Para uma pessoa “normal” cruzar da Síria à Turquia e depois pra Grécia, poderia custar algo como US$ 40. Para os sírios, custa 3.000 Euros. E mais, não há garantias de que você chegará ao seu destino. O único caminho é atravessar o deserto entre a Síria e a Turquia a pé, sobre um milhão de balas do exército. É preciso pelo menos cinco tentativas de escalar a montanha que separa os dois países para conseguir atravessar (já que quando alcançam o topo da montanha, são recebidos com balas e obrigados a descer novamente). Essa não é uma história bonita, muitos morrem e várias famílias se perdem umas das outras.

carta de natal

E por que não ficar?

A alternativa “ficar em seu país” não é nada promissora. A vida por lá é mais ou menos assim: de repente, seu irmão, que é professor, desaparece. Tudo que você sabe é que ele foi para a prisão, mas você não pode visitá-lo, pois não sabe qual prisão. Você não ouve falar dele há anos. Você chega a conclusão de que ele simplesmente está morto. E não é apenas seu irmão, o primo de seus amigos também, seu próprio amigo, parentes e pessoas que você conhece. Eles desaparecem.

Quando você finalmente resolve deixar o seu país, os problemas não acabam por aí. Depois de muita caminhada e escalada, você consegue encontrar um barco que te levará da costa da Turquia à Grécia. Você paga cerca de 3.000 Euros cada pessoa pelo percurso de menos de uma hora, não importa sua idade, até bebês de colo pagam esse valor. Não há nenhum piloto treinado para dirigir o barco, ao invés disso, um dos passageiros será selecionado na hora da partida e encarregado da missão de manusear o motor. Tudo o que você pode fazer é esperar pelo melhor.

Quando você chega na Grécia, acha que escapou da morte. Bem, basicamente sim, mas a tristeza não termina aqui. Você agora tem que viver nas ruas, quando antes costumava ter uma casa enorme. Você é tratado como lixo, quando antes costumava ser respeitado em seu trabalho. Muitos dos que te ajudam são aqueles que nem sequer têm uma solução para suas próprias ideologias, como os anarquistas.

Então você percebe a miséria a que sua vida se resumiu.

Mas eles não são pessoas ruins?

Estamos falando aqui de milhões de pessoas extremamente qualificadas e capazes. E eu não estou esquecendo que também há pessoas ruins. Eu sei que existem alguns perturbadores, mas nós vamos condenar toda uma nação por esses poucos que causam problemas? Eu não estou apenas digitando essas palavras, eu realmente me encontrei com essas famílias. Esses não são exemplos que vi na TV, eu os ouvi de suas próprias bocas. Não deixe que as manchetes sensacionalistas de Daily Mail ou Fox News moldem sua opinião sobre milhões  de seres humanos.

São pessoas, assim como nós. Eles olham, fazem brincadeiras, comem, riem, gritam… assim, como nós. Há um grande número ali que se daria bem em qualquer lugar do mundo, mas eles simplesmente não são bem-vindos.

Vamos pensar além das fronteiras.

Antes de julgar alguém por conta de suas crenças ou cultura, tente conhecê-los. Haverá alguns maus sim, mas haverá uma grande esmagadora maioria que são bons. Como em qualquer círculo social.

Meu apelo para todos é: vamos honrar nossos desejos neste Natal. E aqui aproveito a oportunidade para enviar os meus melhores votos para aqueles que ainda estão ansiosos para serem aceitos em uma cultura diferente da deles, já com seu orgulho completamente quebrado. Com os olhos cheios de lágrimas, desejo o meu melhor para todos os refugiados lá fora.