Este post também está disponível em: enEnglish

Mas Por Ellos

Álvaro Pérez-Pla tinha uma vida muito parecida com a da maioria dos jovens de classe média de sua idade. Sem preocupações, cheio de eventos sociais, gostava de fumar maconha com os amigos e frequentava a faculdade quase que por imposição social.

Aos 20 anos, resolveu seguir um antigo sonho: voluntariar na África.

Após poucas semanas trabalhando em uma ONG no Quênia, descobre que o dinheiro de doações estava sendo desviado e, ao interpelar o dono da organização, acaba sendo ameaçado e mandado de volta à Espanha.

A experiência o marcou profundamente e ele não conseguiu mais se adequar à antiga vida.

Ele então se reuniu com amigos para fundar a ONG Más por Ellos e após conseguir arrecadar dinheiro o suficiente para iniciar alguns projetos, se mudou de mala e cuia para o continente africano, onde vive até hoje.

Aos 27 anos, Álvaro dirige a Más por Ellos, ONG com diversos trabalhos sociais no Quênia (e mais recentemente no Zâmbia também), desde atuação na segunda maior favela da África, Kibera, na capital queniana, a um orfanato que atende diretamente 20 crianças no interior do país.

Toda a equipe Más por Ellos, que envolve colaboradores no Quênia, Espanha e voluntários do mundo todo, estão ajudando a mudar a realidade de milhares de pessoas. Para mais informações acesse o site da ONG. Veja também a matéria que escrevemos sobre nossa contribuição ao projeto aqui.

Mas Por Ellos

Monday Feelings: O que te inspirou a deixar a Espanha e se mudar para o Quênia? Teve algum motivo pessoal?

Álvaro Pérez-Pla: A primeira vez que fui para o Quênia eu tinha 20 anos e estava na universidade. Eu estava “estudando” administração de empresas, e eu digo entre aspas porque na verdade não estava fazendo nada. Tudo o que eu fazia era ir pra balada e fumar maconha com meus amigos.

Eu sempre quis viajar pela África, mas não tinha dinheiro suficiente. Foi então que me organizei e comecei a trabalhar para realizar esse grande sonho.

Quando olhei no mapa e comecei a pesquisar, o Quênia parecia ser o melhor lugar para começar.

As coisas não foram como planejei e, depois de 4 meses tive que voltar porque eu estava sendo ameaçado.

No entanto, a experiência que eu tinha vivido fez surgir um sentimento dentro de mim que eu tenho certeza que acontece com muitas outras pessoas que trabalham como voluntários. Quando eu voltei para a Espanha, tentei diferentes trabalhos, mas eu não conseguia esquecer (a vontade de voltar à África).

Eu queria fazer diferença no mundo, por menor que ela fosse. Eu queria mostrar para o mundo que se queremos um mundo melhor, não podemos simplesmente sentar e esperar por um milagre, nós temos que agir e sermos responsáveis com nossas atitudes.

MF: Por que você decidiu abrir uma ONG no Quênia e não no seu próprio país, Espanha?

AP: A maioria das pessoas que se dedicam ao setor de ONGs o fazem porque se sentem na responsabilidade de fazer algo. Há diversas coisas que podem ser mudadas para criar um mundo melhor, mas a pessoa tem que seguir o que ela/ele é mais apaixonado e lutar por essa razão.

Mesmo que na Espanha haja pessoas vivendo em condições ruins, eu duvido que alguém possa comparar essa condição com a das pessoas vivendo no Quênia. Eu não acredito que por ter nascido na Espanha, eu tenha que ajudar meu país. Eu acredito que as pessoas pertencem ao mundo e não importa onde nascemos, é nossa obrigação ajudar os que estão em piores situações e têm menos chances.

Além disso, eu não estava pensando apenas no impacto que poderíamos causar nas pessoas ajudadas, mas também no impacto que poderíamos causar nas pessoas observando nosso trabalho. Ajuda Humanitária na África é muito mais visual e então se torna mais fácil de provar um ponto. Estávamos comprometidos com isso também.

MF: Se você nunca tivesse voluntariado antes (ele viaja ao Quênia pela primeira vez em 2010) acha que teria o mesmo destino?

AP: Definitivamente não. Essa é uma experiência que eu acredito que todas as pessoas deveriam ter, porque ninguém seria capaz de continuar vivendo a vida da mesma maneira, como se nada tivesse mudado. (Em nossa vida) Conhecemos apenas uma realidade, até que tentamos entender como vivem outras pessoas. E eu acredito que voluntariar é uma ótima maneira de fazê-lo.

MF: Quais são as principais dificuldades ao se trabalhar com uma cultura diferente?

AP: Existem algumas dificuldades óbvias, como barreiras linguísticas ou a diferença de hábitos alimentares. Mas eu gosto de enxergar isso como uma oportunidade e tirar proveito da situação.

Obviamente as pessoas têm que entender a cultura do país em que está vivendo, mas uma vez que isso acontece, você tem a vantagem de ser fluente em duas formas de comportamento e de entender as duas culturas distintas. Quando você percebe isso é quando ganha a vantagem e começa a tirar o melhor de qualquer situação que encontrar.

MF: Qual a receptividade das pessoas com uma pessoa de fora? Você acha que seu trabalho seria mais fácil se você fosse queniano?

AP: O povo queniano é muito receptivo com os estrangeiros se você deixar de lado o clichê “mzungu” (toda pessoa que não tem a pele negra é chamada de “mzungu” no Quênia”, uma antiga alusão ao colonizadores ingleses).

Eles estão acostumados a receber turistas durante todo o ano e normalmente gostam da presença de pessoas “brancas”. Alguns quenianos são mais receptivos porque pensam que podem conseguir algo de você, outros porque acreditam que você tem mais educação que eles… qualquer que seja a razão, eu acredito que teria sido mais difícil se eu fosse queniano. Mas eu não tenho uma opinião objetiva sobre o assunto, pois desde o início tenho trabalhado lado a lado com um local e temos conquistado tudo juntos.

Mas Por Ellos

The founders of Mas Por Ellos and Lisha Mtoto

MF: Quais são os maiores desafios do seu trabalho? E mais especificamente no Quênia?

AP: O maior desafio tem sido trabalhar com mais de uma centena de voluntários, quando todos eles querem vir e fazer uma grande diferença em um tempo muito curto. Trabalhar com as expectativas, competências e esforços desses voluntários é muito difícil, principalmente porque você começa a realmente compreendê-los e trabalhar bem em equipe quando o período desse voluntariado terminou e você está levando-os ao aeroporto (muitos voluntários são de curta temporada, muitas vezes de um mês, por exemplo).

É um desafio, mas ao mesmo tempo é uma das coisas que mais aprecio, pois nos dá a chance de não só aprender com diferentes pessoas, mas também nos dá a esperança de que nossa mensagem será passada adiante e talvez mudar muitas mentes e gerar uma grande mudança. Na verdade, é principalmente através dos voluntários que nossos propósitos podem ser alcançados.

MF: Você acredita que ONGs européias trabalhando na África podem exacerbar problemas como o racismo? 

AP: Eu acho que certamente pode, mas está nas mãos das ONGs pararem de criar uma imagem distorcida. Muitas ONGs estão indo para a África subsaariana com a única idéia de ajudar e não se envolver com a comunidade. Eles dão ajuda sem estudo prévio da situação local e afirmam que têm investido milhões de dólares em ajuda, se preocupando apenas com números. Isso faz com que os africanos acreditem que as pessoas “brancas” podem desperdiçar recursos financeiros e que relacionamentos são baseados em conveniência. Então, as pessoas locais também tentam ganhar tudo o que for possível dessa relação com as ONGs, o que cria um racismo diferente do que o que as pessoas conhecem.

MF: Como fugir do estereótipo “o branco ensina e o negro aprende”?

AP: A primeira coisa é compreender que você não irá resolver um problema que não conhece. Primeiro você tem que aprender com o homem negro para então começar a entender a essência do problema. Em segundo lugar, você tem que ter os locais envolvidos na resolução do problema. Ao fazer isso você está ajudando a criar uma abordagem sustentável para a resolução dos problemas. Se o estrangeiro vem e tenta resolver o problema, as chances de fracasso do projeto são muito grandes. Todo mundo precisa se sentir parte da mudança para que a mudança realmente tenha um efeito sobre ele/a. Se não for feito dessa maneira, as pessoas não se importam se o projeto falhar. Por outro lado, se eles colocarem seus esforços em um projeto, naturalmente também irão se empenhar mais para que o projeto realmente tenha sucesso.

MF: Como você se vê em 10 anos?

AP: Eu espero que nesse ponto o orfanato tenha várias crianças e eu voltarei ano após ano para ver como os projetos estão evoluindo.

A idéia da nossa ONG é não criar uma dependência do nosso trabalho, mas sim criar uma mudança sustentável, criando projetos que começam e se desenvolvem a partir do trabalho e esforços de pessoas locais. Se nós não formos capazes de deixar os projetos nas mãos dos africanos, isso quer dizer que fizemos as coisas erradas e falhamos grandemente. Eu gosto de pensar que esse não será caso.

 

MF: Como você vê o Quênia em 10 anos? E as crianças de Tala (cidade do interior do país onde está localizado o orfanato) em 10 anos?

AP: O Quênia é um dos países com maior crescimento econômico e o centro tecnológico da região. As perspectivas para os próximos 10 anos não poderiam ser melhores, com a conclusão de uma linha de trem ligando o porto de Mombasa aos países vizinhos e as recentes descobertas e exploração de petróleo na província ao norte. O Quênia será um dos países líderes no que deve ser uma grande mudança de desenvolvimento.

As crianças de Tala estarão todas no colégio ou universidade e, definitivamente, vivendo fora do orfanato. A idéia é que elas se tornem auto-suficientes e para que isso aconteça elas têm que se adaptar ao ambiente social do Quênia. A primeira mudança que vai ocorrer em suas vidas é ir para um colégio interno durante o ensino médio (colégios internos são extremamente comuns no Quênia), isso vai colocá-los no mesmo nível de outras crianças de sua idade. Quando elas concluírem o ensino secundário, alguns, esperamos, se sairão bem e poderão ingressar numa boa universidade. De qualquer maneira estaremos sempre em contato com elas e as ajudando em todos os aspectos possíveis.

Mas Por Ellos

MF: Seu trabalho humanitário é temporário ou é algo para a vida toda?

AP: Com certeza será algo com a qual estarei envolvido toda a minha vida, mas não o meu trabalho para a vida toda. Eu tenho outros sonhos que quero realizar, como ter uma família, por exemplo. Eu não quero ser injusto, e eu acho que é incompatível dedicar sua vida para os outros e para a sua família. Eu acredito que há um tempo certo para tudo na vida e que as pessoas têm que fazer o que as deixa mais feliz, para então criar uma mudança positiva nas pessoas que estão ao seu redor. Por agora, essa minha escolha é o que me faz mais feliz, mas é um sacrifício muito grande.

MF: E como você planeja passar o seu trabalho para outra pessoa considerando a sua importância?

AP: Eu sempre vou estar envolvido no projeto e participando das tomadas de decisões. Mas muitas das tarefas que eu tinha que fazer no início, por exemplo, eu já não tenho que fazer agora.

Nós contratamos 9 quenianos que estão executando muitos dos projetos que temos em curso. Nós ainda precisamos contratar mais pessoas para criar uma estrutura sólida que nos permitirá aumentar nossa ajuda, mas a idéia é planejar com antecedência e não nos envolvermos em projetos que não somos capazes de manter com a estrutura que temos.

MF: O que você aprendeu nesses últimos 3 anos? E o que ensinou? 

AP: O que não aprendi nesses últimos 3 anos!

Eu fiz um “mestrado em vida”, como alguns amigos dizem. Agora eu sei sobre arquitetura, construção, agricultura, criação de animais, cooperativas, comunicações, organização de eventos, Excel, gestão de pessoas, economia … Eu aprendi mais nos últimos três anos do que durante toda a minha vida.

Eu não sei realmente o que ensinei. Eu quero acreditar que mais do que ensinar alguma coisa, eu inspirei pessoas a irem atrás dos seus sonhos.

MF: Como/quem era o Álvaro de antes da Más Por Ellos e como/quem é o Álvaro de agora?

AP: Antes de iniciar a Más Por Ellos, o Álvaro não tinha responsabilidades, era muito social e pensei que ele tivesse tudo na vida. Não havia mundo interior dentro dele e acreditava que o mundo que conhecia era tudo o que existia.

Hoje o Álvaro tem uma grande responsabilidade e pouca vida social. Ele ainda gosta de festa com os amigos, viajar ou assistir futebol, mas decidiu abrir os horizontes para aprender muito mais da vida em aspectos que antes não faziam parte de suas perspectivas. Ele gosta de seu trabalho e gosta de aprender, então não é um problema ter que estudar ou ficar acordado até tarde trabalhando. Antigamente isso nunca poderia ter acontecido, já que a vida social e a balada estavam acima de tudo.

MF: Qual a sua mensagem para o mundo de hoje?

AP: Há diferentes realidades e formas de se viver que são baseadas em coisas muito mais saudáveis ​​das que estamos vivendo atualmente. Chegará um momento em que compreenderemos que não é necessário alguém perder para que outro ganhe. É tempo para a humanidade, agora que a informação está na palma de nossas mãos, sacrificar parte de sua existência ou pertences para tornar isso realidade em todo o mundo. A vida tem o valor e significado que você dá para ela e que melhor significado alguém pode querer?

MF: O que é a segunda-feira para você?

AP: Eu perdi completamente a percepção de que dia da semana é. Eu trabalho 7 dias por semana. (A segunda) É um novo começo para a maioria das pessoas e, portanto, é uma chance de fazer as coisas direito. Todos os dias devem ser como a segunda-feira porque todos os dias você deve acordar com essa motivação.